Relato de uma jovem com ansiedade

Calma mulher - copy(5)Minha ansiedade foi diagnosticada quando eu tinha 14 anos. Ela veio com crises de pânico que me impediam de ir para escola – o lugar que eu mais gostava. Os motivos eu fui descobrindo com o tempo, e com ajuda de psiquiatra e psicóloga. Mas, ainda hoje, 8 anos depois, eu convivo com ela.

Posso afirmar com toda certeza que nunca mais a ansiedade chegou em um nível tão forte como naquela época, mas ela ainda existe e, infelizmente, crises são comuns.

Tenho fases melhores, já recebi alta do psiquiatra duas vezes. Tive que voltar depois. A terapia, se eu puder, nunca vou parar. Apesar de já ter ficado quase um ano sem ir, acho extremamente importante e que todo mundo deveria fazer.

Eu quero me usar como exemplo não porque minha história é especial ou algo do tipo. Longe disso. Eu sou uma mulher carregada de privilégios, mas isso nunca fez com que eu não sentisse angústia.

Mas é que desse assunto eu entendo. Eu vivo isso. Eu sinto.

As pessoas não levam ansiedade a sério

O que eu acho importante falar, primeiro, é que as pessoas não levam a sério. Lá atrás, nos meus 14 anos, o que eu precisava para ficar mais tranquila era algo simples: garantia de autorização para sair da sala de aula sempre que eu precisasse.

Parece a coisa mais boba do mundo, mas pra mim era essencial. Eu ficava apavorada com a possibilidade de surtar na frente de todo mundo, eu precisava ter o direito de fugir.

Deu tudo certo, principalmente porque a escola em que eu estudava soube lidar perfeitamente com a situação e eu tenho uma gratidão eterna às diretoras.

Porém, anos depois de formada, fui em uma festa da escola por conta do meu irmão mais novo, que ainda estuda nela, e um professor questionou se eu tinha “parado de frescura”.

Coisas assim são comuns. E doem. Porque eu já vivo me martirizando pelas crises em que faço tempestade em copo d’água. Na hora, eu não tenho essa noção. Eu só consigo enxergar depois. Tem época que controlo tudo isso muito bem, mas infelizmente não é sempre.

Ansiedade pode deixar as pessoas muito chatas

E aí, dos poucos que realmente se importam e se esforçam pra tentar ajudar, tem outro ponto, que também me dói admitir: é preciso ter uma paciência tremenda, porque ansiedade pode deixar as pessoas insuportáveis.

Nesses momentos de crise, eu fico insuportável. Eu fico negativa, eu acredito que absolutamente tudo vai dar errado. Algumas vezes, fico até agressiva. Tenho vontade de xingar pessoas a troco de nada. Eu sinto uma revolta interna muito grande, e preciso colocar para fora.

Eu sinto que já machuquei pessoas por isso, então tento evitar. Mas é tão difícil. Parece que fica tudo guardado aqui dentro, e aí, eu me sinto pior. Mas se eu sou grossa ou negativa, também me sinto um lixo.

Já ouvi dizer que pessoas com ansiedade tem muita mania de se culparem. Eu me culpo muito. E aí sempre acho que tenho que amenizar o que sinto, o que penso, o que falo, porque muita gente está só me “suportando”.

Ainda mais hoje, em que as pessoas desistem umas das outras com tanta facilidade, eu tenho medo de todos desistirem de mim. 

Mas guardar todo esse peso para mim também não é saudável. E aí? Não sei. Eu queria ter essa resposta.

Cuide-se

Tudo o que eu posso dizer para quem vive o que eu vivo é que é preciso se cuidar. Eu voltei a ter crises no final do ano passado e, então, voltei para terapia no começo desse ano. Tem me ajudado muito.

Alguma coisa a gente tem que fazer, sabe? É preciso tentar curtir um pouco, também. Mas com cuidado para não jogar tudo o que a ansiedade causa em bebidas, drogas ou até mesmo em uma pessoa. O vazio toma conta.

E se você precisa de medicamento, não deixe os outros de julgarem por isso. Se você precisa, tome! Pense em não depender dele, pense em largar ele assim que possível, mas não deixe de tomar só porque algum mané veio com discurso negativo sobre isso. É melhor tomar remédio do que surtar.

Sigo na luta por achar coisas, mesmo que bobas, que façam eu me sentir melhor, preenchida. E sei que um dia vai passar. E talvez um dia volte de novo. E tudo bem. Eu aguento. 

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Sobre amor

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Eu vivia falando sobre amor para ele. Ele ouvia, prestava atenção. Às vezes até dizia que estava sentindo.

Depois ele fingia que nunca tinha falado aquilo. Tentava me convencer que simplesmente nunca iria entender. Quis enfiar na minha cabeça que Bauman explica os motivos dele apostar na frieza.

Eu ainda quis falar de amor.

E quando ele achava conforto em meus braços, eu sabia que ele estava entendendo.

Eu só não podia falar sobre isso. Muito menos pedir que ele falasse sobre isso. Parecia até que tinha medo. Se eu tentasse tocar no assunto, ele falava que eu não tinha que me preocupar tanto

E quanto eu me sentia perdida ou desmotivada, ele vinha me dizer que eu podia tentar deixar a vida um pouco mais leve escolhendo algo pelo o que lutar. Tentando passar para os outros coisas que acredito que possam fazer o mundo um pouco melhor.

Engraçado.

Eu acredito justamente no amor. Que a falta dele está aos poucos destruindo o mundo.

Ele pode nunca ter entendido, mas essa é a luta que eu escolhi. Ele pode nunca ter percebido, mas eu tenho certeza que mexi, nem que seja um pouquinho, nas ideias dele sobre esse sentimento.

E mesmo hoje, depois dele também ter mudado vários dos meus pensamentos sobre o tal amor, eu ainda acredito nessa batalha.

Foda-se a tal da liquidez. Eu não estou aqui para isso.

Eu vou falar de amor sim. Eu preciso ter fé nele.

Em todas suas formas e jeitos.

O amor de pai, o amor de mãe, o amor de amigo. O amor pela profissão ou até mesmo a falta dele. O amor pelas palavras, o amor que a gente às vezes precisa sentir até por quem a gente insiste em odiar. O amor pela vida. O amor de Deus, Deusa, ou seja lá quem for ou o quê for que ainda insiste em tentar coordenar toda essa bagunça aqui, mesmo quando a gente não ajuda.

É sobre amor que eu quero falar.

 

Proteção

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Infelizmente eu ainda tenho certo apego a coisas que já passaram, e parece que meu subconsciente fica arranjando desculpas para falar com você.

Você não tem noção do quanto estou cansada disso.

Às vezes eu paro para pensar nessas coisas e sei que pra você pode parecer bizarro. Porque já faz um tempo.

Mas é que você está vivendo, sabe? Você está sempre em algum lugar, sempre com oportunidade de conhecer novas pessoas, e tem muita mulher foda no mundo que você pode curtir.

Eu estou tentando gastar minha energia no trabalho,  descobrir novos rolês. Também estou vendo que às vezes faz falta ter a garantia de um lugar para ir todo fim de semana, e que homem legalzinho é coisa rara em qualquer lugar.

Desde quando você falou que nem amizade dava pra a gente ter, eu saquei que você tinha achado alguém importante por aí. Isso é ótimo. Apesar de doer um pouco aqui.

Acho que eu me sentia protegida quando você estava por perto.

Isso pode ser uma bosta porque eu não sou só essa menininha assustada-com-ansiedade-impulsiva-que-gosta-de-textão, mas infelizmente eu apareço para você nos meus momentos mais frágeis porque você me deu força.

Mas eu não sou só isso.

Eu não quero ficar aparecendo assim do nada, mas tem hora que eu não aguento. Eu sei que nunca vai ser como antes. Nem tem que ser.

Eu tenho que aprender a me virar sozinha nessa merda. Prometo que vou tentar.

Responda

Nosso cérebro às vezes se torna um inimigo

Nosso cérebro às vezes se torna um inimigo.

Principalmente se você é uma pessoa ansiosa. Seu cérebro simplesmente acelera todas as situações para todas as probabilidades existentes de tudo dar errado.

Então, chega um momento em que você precisa começar a responde-lo.

Responda. Talvez essa seja a melhor lição minha terapeuta tem me dado.

E não é só sobre responder com um positivismo sem embasamento. Não é só sobre ficar olhando pro céu e falando “vai dar certo sim, vai dar certo sim”.

É sobre trazer à sua mente situações e momentos que, com seu esforço, deram certo. É lembrar que você já passou por coisas difíceis e, mesmo assim, depois ficou tudo bem.

Tua mente tem essa mania de proteção que às vezes é exagerada e assusta. Só você mesmo pode conscientemente driblar isso. Você consegue.

 

Naquele ano

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Dia desses, lembrei da nossa história. Sei que nem faz tanto tempo assim que ela se encerrou, mas, de alguma forma, acho que meu cérebro tenta fugir dela. Na verdade, tem muita coisa que não lembro direito, e aí me vem uma certa preocupação: será que de fato apenas não lembro, ou será que todo o resto está guardado no meu subconsciente e ainda me machuca?

É o tipo de resposta que eu não vou ter. Assim como nunca vou saber como foi para você me deixar de um dia para o outro. Como foi simplesmente fingir que não me conhecia depois de quase um ano inteiro compartilhando momentos. Mesmo que fossem aqueles bobos minutos voltando para casa. Ou as idas ao bar. Ou você indo conversar comigo até quando eu nem tinha tempo para isso.

Outra resposta que talvez um dia eu gostaria de ter é se em algum momento você finalmente percebeu que a culpa não foi minha. Ou pelo menos não só minha. Erramos feio, mas erramos juntos.

Apesar dos questionamentos, não fico assim tão triste em ter lembrado. Afinal, ao contar essa história, mais de um ano e meio  depois do fim , eu finalmente consegui dar risada. Dei risada de mim mesma, por não ter visto maldade em você. Dei risada de você, por bancar toda essa pose de machão e não ser homem suficiente nem para assumir as próprias responsabilidades.

Eu não sei como está sua vida e, no fundo, nem quero saber. Tenho crescido e aprendido tanto que hoje enxergo que você ter me abandonado da noite pro dia foi a melhor coisa que aconteceu entre nós dois. Porque era tudo superficial e sem sentido. Porque você nunca foi o tipo de homem que me faria feliz e, sejamos sinceros, nem meu amigo você conseguia ser.

Mesmo assim, não sinto raiva. Espero só que você tenha evoluído ou pelo menos tenha tentado evoluir. Espero ainda que você esteja fazendo ela feliz, e que assim seja porque vocês querem, e não por puro comodismo.

Que você nunca mexa com o psicológico ou com a autoestima dela da mesma forma que fez comigo. Que seu machismo e seu egocentrismo hoje nem consigam ser notados.

Que hoje você seja uma pessoa melhor do que foi naquele ano.